O corpo do ex-vice-presidente José Alencar vai ser cremado. O
objetivo é evitar o constrangimento de uma provável exumação para a
coleta de material genético para a realização de um exame de DNA para
instruir o processo de investigação de paternidade que lhe move a
professora Rosemary de Morais.
O assunto provocou enormes aborrecimentos a José Alencar. Ele sempre
negou o relacionamento com a mãe de Rosemary, mas jamais aceitou a
possibilidade de passar por um exame de DNA. Em julho passado, diante
das seguidas recusas, o juiz de Caratinga decidiu, por presenução da
paternidade, averbar o sobrenome Alencar na certidão de nascimento de
Rosemary.
Com a morte, em tese, Rosemary poderia obter na justiça a ordem para
desenterrar o corpo e colher amostras de seus tecidos para análise. É
esta a razão da opção pela cremação, e não pelo enterro, como é
convencional entre as famílias católicas brasileiras.
É o ponto final inglório de uma existência gloriosa. Uma espécie de
queima de arquivo genético que vai marcar para sempre a trajetório de um
homem que teve sua imagem associada ao respeito ética e à coragem de
sustentar publicamente posições firmes.
A cremação é comum e chega a ser estatisticamente predominante em
vária culturas. No Brasil, no entanto, as tradições judaico-cristãs
fazem desse tipo de exéquias um evento raro: acontece apenas uma vez a
cada 2o funerais. Sua associação com o ambiente político e problemas
judiciais pode gerar marcas simbólicas que dificilmente o tempo consegue
apagar.
Dezessete anos se passaram desde a morte de Elma Farias, viúva de PC
Farias, o pivô do esquema de corrupção que terminou por derrubar o
governo de Fernando Collor de Mello. Até hoje a opção pela cremação do
corpo provoca suspeitas de que tenha sido adotada para ocultar as reais
circuntâncias do falecimento. As dúvidas decorrem da impossibilidade de
reexaminar o corpo, como aconteceu quando o próprio PC Farias foi
exumado.
Não há qualquer outra analogia possível entre o destino trágico dos
protagonistas do chamado Collorgate e o drama da família e da suposta
filha do ex-vice-presidente. Mas certamente as circunstâncias irão
criar, para o futuro, a “certeza” de que a ausência de um túmulo que
possa ser cultuado pelos admiradores de José Alencar se deve à tibieza
diante da única conduta questionável conhecida de um homem cuja
biografia é virtuosa.
A perspectiva da exumação inquieta e entristece os parentes do morto.
É como se ele fosse molestado em seu descanso sagrado para confessar
algo que não quis admitir em vida. A ordem judicial para desenterrar e
coletar amostrar de tecido normalmente é encarada como uma violação. É
isso que os Alencar querem evitar.
A cremação encerra a possibilidade, mas não encerra o processo de
investigação de paternidade, que pode prosseguir com a coleta de tecidos
dos descendentes. Portanto, cremar ou não um cadáver é inócuo diante
das muitas outras possibilidades de constituir uma prova.
Não se sabe se a decisão partiu do próprio José Alencar ou se foi
tomada pela viúva e pelo filhos. É provável que a determinação tenha
sido feita em vida pelo próprio vice-presidente — e que esteja até sendo
respeitada a contragosto por seus herdeiros. Assim como enfrentou
publicamente o cancer, Alencar não se furtou em tratar publicamente do
assunto. Foi ele quem pediu a retirada do segredo de justiça sobre o
processo movido por Resemary.
Em entrevista ao Programa do Jô, em agosto do ano passado, Alencar
explicou por que não admitia a realização do DNA. Foi sua pior
performance pública (veja o video abaixo). Ele chegou a insinuar que a
mãe de sua suposta filha era prostituta. “Essa senhora nunca podia
alegar que tinha posto o pé naquele clube. Aquilo era uma religião”,
disse, ao referir-se ao local onde seus contemporâneos — e ele próprio —
se encontravam as namoradas. “Tinha também a chamada zona boêmia. Todo
mundo frequentava a chamada zona boêmia”, disse ele ao apresentador.
“Daqui a pouco todo mundo vai ter que fazer exame de DNA”.
A escolha de Alencar, da viúva e dos filhos é um direito que assiste a
família. Mas vai criar uma uma implicação simbólica que repercutirá
para sempre. Vai faltar uma sepultura para os admiradores, carpideiras e
romarias — só para que o material genético não seja alcançado no futuro
por um oficial de justiça.
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16:05
Potengi Na Internet
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